Da escova antifrizz ao tigrinho: como a gente se deixa levar

Mulher mexendo ao celular

Um dia desses, ao rolar minha for you do TikTok, me deparei com um vídeo da Bia Nardini, uma influencer digital e designer de moda que traz diversos vídeos em seu perfil na plataforma com reflexões a respeito de moda, tendências, sociedade e consumo. Ela abre o vídeo com uma pergunta provocativa: como é possível que, mesmo sendo seres racionais, sejamos tão facilmente influenciados?

A partir desse questionamento, Bia retoma a polêmica em torno da escova de cabelo da marca Tangle Teezer, que viralizou há alguns anos por prometer desembaraçar os fios sem quebrá-los e sem gerar frizz - quase um milagre capilar. Era quase impossível não esbarrar com vídeos elogiando a escova, até que isso mudou. Bastou que um tiktoker dissesse que, na verdade, a escova de madeira era melhor para que muita gente abandonasse sua Tangle Teezer como se ela nunca tivesse funcionado.

Bia usa o episódio para destacar que certas experiências precisam ser baseadas na nossa experiência individual. Logo, se um produto funciona para você, por que descartá-lo só porque outra pessoa disse o contrário? Ela conclui o vídeo chamando atenção para a responsabilidade que influencers e criadores de conteúdo possuem quanto àquilo que estão transmitindo. Ao mesmo tempo, relembra que também temos responsabilidades enquanto consumidores e que é imprescindível filtrarmos mais o que chega até nós.

O objetivo aqui não é discutir escovas de cabelo, mas abrir um diálogo sobre influência digital em tempos de hiperconectividade. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdo e informação como temos hoje, a tecnologia permitiu muitos avanços e incorporou novas formas de disseminar e consumir conteúdo: novos dispositivos, plataformas e funcionalidades como a legendagem de vídeos que impulsionaram e democratizaram os conteúdos que hoje chegam em muito mais pessoas, com muita diversidade. Mas o que acontece quando ao invés de ser um agente transformador a influência digital também se transforma num amplificador de desigualdades e propagador de desinformação?

Se antes o papel dos influenciadores digitais estava ligado somente ao entretenimento e a divulgação de produtos, hoje ele exerce um poder muito grande de formação de opinião, propagação de tendências e comportamentos e, em muitos casos, contribuem com discursos nocivos e intensificam os desafios que enfrentamos enquanto sociedade. Nos últimos anos, o Brasil viu disparar o número de apostas em jogos de azar online como o famoso Tigrinho e outros semelhantes, impulsionados por uma enxurrada de divulgações feitas por influenciadores. Muitos deles tiveram um papel central na popularização dessas plataformas, em troca de altos cachês. As divulgações eram geralmente abusivas sugerindo que o hábito de jogar era uma forma fácil e rápida de ganhar dinheiro e até mesmo uma categoria de investimento. Os nomes com maior destaque e vínculo com as casas de apostas são os das influenciadoras Virgínia Fonseca e Deolane Bezerra.

O impacto? As famílias, sobretudo as mais pobres, deixaram de pagar contas básicas e de comprar itens como alimentos, produtos de higiene e remédios para continuar apostando na expectativa do prêmio. As ocorrências acarretaram em uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), intitulada CPI das Bets que tinha por objetivo investigar o fenômeno das apostas online no Brasil e os crimes de lavagem de dinheiro, evasão fiscal, organização criminosa e manipulação algorítmica com possível fraude de resultados, que corroboram com o endividamento de famílias e com os impactos negativos na economia brasileira.

A influência nas redes se tornou um ativo estratégico para o capitalismo digital, que molda comportamentos em uma sociedade hiperconectada e cria a falsa sensação de autonomia, enquanto nos mantém sob controle nas plataformas digitais, regidas por algoritmos que amplificam tanto conteúdos relevantes quanto nocivos. Por isso, debater a responsabilidade dos influenciadores é urgente para que possamos construir um ambiente digital mais ético e consciente. Cabe também a nós, enquanto consumidores e agentes participantes, exercer de forma crítica o nosso poder de escolha, valorizando quem promove mudanças positivas e contribui para o desenvolvimento de um futuro mais justo e sustentável para todos.

Influencers como Gabriela Prioli (@gabrielaprioli), Rita Von Hyunty (@rita_von_hunty), Nath Finanças (@nathfinancas), Mari Krüger (@marikrugerb), Fe Cortez (@fecortez/@menos1lixo) e Elisama Santos (elisamasantosc) são exemplos que usam sua visibilidade e voz para criar conteúdos construtivos na internet e amplificar assuntos fundamentais como saúde mental, educação, sustentabilidade, economia, pautas sociais e políticas. São também nomes que se comprometem com a inclusão, adotando o uso de legendas em seus vídeos, um recurso essencial para a acessibilidade e que amplia tanto o alcance quanto o engajamento do conteúdo.

Incluir esse recurso hoje é fácil, o aplicativo Legenda.Ai., por exemplo, é uma ferramenta mobile ideal para gerar legendas automáticas em vídeos curtos voltados para plataformas como Instagram e TikTok.

Fontes: Agência Senado, Agência Brasil

Laura Pavani

Analista de Produção Audiovisual na Chiaro Filmes, atua em todas as etapas da produção, da pré à pós-produção de vídeos e transmissões ao vivo. Atualmente cursa um MBA em Marketing e uma especialização em Direção de Conteúdo para TV e Mídias Digitais. Apaixonada por cultura, comportamento e linguagem cinematográfica, acompanha de perto os lançamentos e como eles dialogam com a sociedade.

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