Capítulo 1 da Série: Como as tecnologias de tradução e legendagem podem mudar as nossas vidas

Como tecnologias de tradução e legendagem podem mudar vidas ao proporcionar acesso a histórias de todo o mundo.
Imagem de um mosaico com imagens de vários filmes, séries e animes.

Talvez alguns pensem que o título seja romântico (e aqui me refiro ao movimento artístico e cultural do Romantismo) ou pretensioso demais. Mas eu realmente acredito que pequenas ações ou influências podem mudar o rumo das nossas vidas. Quantas vezes uma palavra amigável, um sorriso ou um gesto amoroso fizeram com que o nosso dia, e até as nossas decisões, se tornassem melhores?

Este texto é um pouco sobre isso e quero convidá-los a um movimento semelhante: pensar em como o acesso às histórias do mundo, por meio da tradução e/ou da legendagem, foi importante na sua trajetória, seja pessoal ou profissional. Antes de mais nada, para ser justa, preciso apresentar meu herói da juventude, que, como no jargão internetês, "não usa capa". Na verdade, o que ele mais usava era o cérebro.

Embora eu tenha nascido no sertão do Ceará, cresci na extrema periferia da zona leste de São Paulo. Muitos marcos me empurraram para uma precariedade difícil de enfrentar, e mais difícil ainda de sair dela. Tudo começou a mudar, no entanto, quando tive acesso aos sonhos. Aqueles que os livros nos proporcionam. Mas esses pequenos objetos sempre foram, de alguma forma, um artigo de luxo.

Como as prioridades da minha família eram outras, em raras ocasiões eu era presenteada com algum exemplar, quase sempre pelos chefes da minha mãe. Isso explica o fato de uma professora minha, na segunda série, se gabar aos colegas por ter uma aluna lendo um livro de Direito. Obviamente, eu não entendia nada; usava-o apenas para praticar a magia prazerosa de decodificar aquelas palavras tão bonitas e sedutoras.

Voltando ao meu super herói, sem capa ou poderes mágicos. Onde eu morava, havia um jovem muito diferenciado. Não só porque, impressionantemente, ele tinha uma família razoavelmente estruturada economicamente, cujos pais ainda moravam juntos, mas também porque não era exibido nem arrogante. Muitas vezes, inclusive, dava sinais de profunda timidez e exercia como ninguém a arte da escuta.

Ele era o único da rua que tinha videogames, mas, diferentemente do Quico (uma referência para poucos aqui, só quem conhece “Chaves” vai entender), ele não ostentava seus “brinquedos” para causar inveja. Pelo contrário, vivia convidando a criançada e adolescentes para jogar, atitude que, na minha percepção, pode ter evitado que muitos desses jovens se metessem em coisas ruins para preencher o tempo livre.

O ponto é que, além de jogos, esse nosso incrível vizinho possuía livros, mangás e DVDs (para quem nunca ouviu falar, discos digitais usados para arquivar músicas, vídeos e outros dados) de animes. E isso, sem medo de exagerar, fez toda a diferença na minha vida. Porque os jogos, confesso, nunca me chamaram atenção. Mas, quando eu passei a falar de livros, meu vizinho super-herói, cerca de cinco ou seis anos mais velho, tornou-se uma espécie de fornecedor do Beco Diagonal (essa referência talvez seja mais conhecida), de onde eu sempre saía com algo fantástico.

Veja, as bibliotecas públicas são incríveis, mas suas regras (necessárias, claro) muitas vezes inibiam nossa presença constante. Além da distância, é evidente. E, de repente, eu tinha, ao lado de casa, acesso fácil a um sem-fim de obras. Então eu, que, como já dito uma vez por um conterrâneo meu, “nunca fui sonhada” e, acrescento, nem nunca me sonhei, passei a imaginar mundos possíveis. A coletar características que eu gostava dos meus personagens favoritos, me identificar, me criar, acreditar que eu poderia ser como eles, estar onde estiveram.

Boa parte dos conteúdos que eu consumia na época não eram brasileiros, como no caso dos mangás e animes. Estes dois termos vêm do japonês, o primeiro se refere a quadrinhos, e o segundo, como o próprio nome indica, a desenhos animados. Um dos meus animes favoritos da juventude, por exemplo, foi “Fullmetal Alchemist”, que, em um resumo muito aquém, narra a história de dois irmãos que perdem a mãe e tentam ressuscitá-la. Eu assistia com o áudio original em japonês e legendas em português. Além disso, era muito comum acompanharmos a transliteração (representação gráfica de um sistema de escrita para outro, neste caso, dos sons em japonês para o nosso alfabeto) das canções desses animes.

Nesse anime específico, havia uma canção de encerramento lindíssima, com tradução e transliteração, que chamou muito a minha atenção. A ponto de me fazer parar a cada sentença e anotar a transliteração para aprender a cantar. Com isso, posso dizer que, embora eu não saiba japonês, sei cantar uma ou outra canção no idioma (risos). Para quem ficou curioso, a música chama-se “Motherland”, da artista Crystal Kay. Essa, claro, não foi a única coisa que aprendi graças ao meu vizinho super-herói e às traduções e legendas. Mas foi, digamos, o grande início da minha viagem por mundos alheios e a ponte que abriu os caminhos que eu passei a desejar trilhar.

Um deles, inclusive, é este aqui: o da escrita. Outro é o de fazer parte de um projeto como o da Skylar, que viabiliza o enriquecimento dos pontos de vista das pessoas e as leva a alcançar mais gente. E também o de tornar o conhecimento realmente acessível para todos.

Maria Karina Nascimento

Bacharela e licenciada em Letras Português/Espanhol pela USP. Sua trajetória profissional diversificada inclui experiência em comunicação, redação jornalística e mediação de cursos no MBA USP/ESALQ. Busca integrar conhecimentos de comunicação, arte, educação, literatura e neurociência com curiosidade e responsabilidade.

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